quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Só mais uma rua...

Moro há 25 anos na mesma rua, na mesma casa, com os mesmos vizinhos e com minha família. Muitos podem pensar que isso é algo muito infantil ou que eu ainda estou na casa dos meus pais porque sou acomodada. Não preciso dar respostas para quem se ocupa em pensar idiotices sobre mim. Porém, só posso dizer que esse é meu lugar, bom ou ruim, cabe a mim e ninguém mais achar.
No entanto, a rua de 25 anos tem suas histórias. Gente trabalhadora, simples e humilde que aos poucos ergueu uma casa, comprou um carrinho, pôs os filhos na faculdade. Alguns filhos se casaram, outros foram embora, viver nos Estados Unidos da América e, quem sabe, viver melhor.
Muitos vieram da roça, vítimas da exclusão e do êxodo rural. Todos por aqui sabem exatamente a dimensão da palavra pobreza.
Tem vizinho que chegou há poucos anos, um casal lá de São Paulo que decidiu envelhecer aqui; outro casal veio de Rio das Pedras ganhar a vida e criar seus meninos bonitos aqui.
Há uma moça na rua construindo uma casa aqui do nosso lado e vai casar no final do ano. Vai ter festa e a irmã de tão longe prometeu vir e trazer a filhinha para que todos possam conhecer.
Há uma simpática cadelinha que não é de ninguém, mas vem toda tarde comer no pratinho exclusivo que minha mãe deu para ela.
Há vizinhos que tomam umas e outras, há vizinhos evangélicos, há viúvos, há churrasqueiros de primeira, há palmeirenses, corinthianos, santistas e são-paulinos. Há crianças, aliás sempre houve crianças nesse pedacinho de mundo. Elas crescem e logo vem outras, como o Cássio que fez um ano e já anda e fala em uma língua alienígena.
E, infelizmente, alguns estão indo, partindo desse mundo. Até agora, foram poucas e doídas as separações: o menino de 20 anos que morreu com antavírus e um senhor bem velhinho. Mas, tem mais alguém indo por estes dias. O câncer não dá trégua não é mesmo? E lá se vai a vizinha de 25 anos que me viu crescer e, no dia da minha inscrição na UNESP pagou as fotocópias porque eu não tinha o dinheiro. Com muitos defeitos e boas qualidades, como qualquer um de nós ela está indo embora e deixando marido e dois filhos, porque um já se foi com antavírus.
Estranho mundo. Já me disseram que para aprender a viver era necessário cair no mundo, ir embora de casa, ver novos horizontes. Até acho viável quando se tem como pagar essa visão de mundo. Só posso dizer que nesse pequeno quarteirão ruidoso e cheio de pipas e meninos correndo há mais à aprender que se tivesse perdida no meio de qualquer outro lugar. Como diria Fernando Pessoa, também da para ser cosmopolita vivendo em uma pequena aldeia.

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