domingo, 16 de agosto de 2009

E viva o eterno pensamento colonial.

As estatísticas do IBGE foram recebidas pelos meios de comunicação com festa e estardalhaço. Na rua os entrevistados sorriam satisfeitos ao saberem que São Paulo tem mais de 11 milhões de habitantes, que todas as cidades brasileiras cresceram e que temos grandes metrópoles em todas as regiões federais.
Certo, todo mundo feliz. E por que será que eu não fiquei feliz ao saber que a população cresce mais rápido que a estrutura social do país. Também não me agradou saber que as grandes metrópoles tem mais pessoas e mais carros na rua, mas não tem mais moradia, mais escolas, mais creches, mais ônibus e metrô, mais segurança, mais áreas públicas de lazer, mais áreas verdes e mais tranquilidade.
Também não me agradou a ideia da perpetuação da área litorânea como região mais importante do país. Então, se metade da população vive aqui e tem parcos recursos públicos, o restante do país nem energia elétrica e estrada possui, correto?
A massificação midiática do litoral como melhor região do território para viver é um conceito colonial, ninguém em sã consciência acredita mais nisso.
Atualmente, sociedades mais abastadas estão gritando por cidades mais silenciosas, com pouco trânsito, muita segurança e áreas verdes. Países europeus modificam a estrutura de moradia há duas décadas para incentivar a economia de energia e água. Também valorizam as áreas rurais levando estrutura similar a urbana: transporte, internet, boas estradas e boa renda per capita.
O conceito de cidade-jardim nasceu na Inglaterra e ganhou muitos adeptos na Itália e, consiste na criação de bairros verdes e tranquilos. A Itália, atualmente, está empenhada em fazer o povo se angajar na ideia de città slow, que nada mais é que reduzir o impacto de barulho nas áreas residênciais do país.
Temos um extenso território e poderíamos desenvolver nas pequenas cidades interioranas turismo sustentável, pólos de tecnologia, produção de energia eólica e solar, agricultura familiar, comércio justo e cooperativas. Com isso, criaríamos milhares de postos de emprego, melhoraríamos a renda de milhões de pessoas e, certamente, desenvolveríamos o território, sem destruir a natureza e incluiríamos os mais pobres de verdade, sem política assistencialista e eleitoreira.
Acho que se o menor município do país - Borá - tivesse algum projeto econômico sustentável e rentável dezenas de pessoas viveriam nas suas cercanias. Acho que se tivéssemos trens de grande velocidade, muita gente moraria aqui e iria diariamente à São Paulo trabalhar, estudar e fazer compras.
Enfim, acho muita coisa. A única certeza que tenho é da enormidade da nossa ignorância e da falta de bons administradores públicos que estão enterrando esse país no buraco. Temos uma janela demográfica se abrindo. Se a utilizarmos bem, daqui 40 anos seremos uma Espanha, se ignorarmos a oportunidade daqui 20 anos seremos uma nova Bangladesh. As coisas óbvias são as mais difíceis de serem entendidas, por que será?

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