domingo, 16 de janeiro de 2011
A geografia e a vida.
Chega o verão e a chuva vem, o morro cai, a vida se vai, a promessa vem, o rio desbarrancai, o discurso no outono esvai, a televisão não reprisa mais, no inverno o urbanista se contrai, a população se refaz, o barraco elevai, a primavera chegai, as flores de plásticos não murchai e o verão dá sinal que vem a mais. E recomeça o ciclo, e a geografia explicai, outrora envergonhai.
Penicilina.
Ela vivia sozinha. Perto dos quarenta, ainda bem bonita. Dessas moças de escritório, de pele branca, olhos castanhos imensos, corpo bem feito, sorriso bem cuidado, e seios que tentavam sair pela blusa , embora já mostrassem que conheciam nessa altura da vida uma certa lei de Newton.
Levava as unhas pintadas, cabelo cuidado e roupa que vestia bem, enfeitava, ressaltava e a tornava ainda mais feminina.
Quem a via passar sentia um ar quase pedante, de quem não olha para os lados e pouca importância mostra para os olhos curiosos e lascivos.
Já no final da terceira década da vida era motivo de especulações dos vizinhos e da família. Ainda solteira, ainda sem filhos, sempre sozinha ou que pena era tão bonita.
- É a cara amarrada! dizia a velha da esquina.
- Marido só vem com sorriso.
Ela fingia não ouvir, parecia soberba, um tanto topetuda e de poucas explicações. Não é o tipo de moça que pede socorro e nem chora no colo das amigas. Ela só se escondeu de todos e da vida. E não é tão difícil se esconder da vida, basta apenas guardá-la dentro de si.
E quem a vê passar acha que sempre foi assim, que ela não tem motivos pra chorar ou que acontecera coisa ruim.
Mas nada é sempre assim, um dia as coisas mudam, um dia tudo acontece, uma dia a noite parece não ter fim. Noite insone, daquelas terríveis, em que todos dormem e o silêncio profundo da rua amedronta quem não dorme, quem não dorme sempre pensa, sempre lembra, sempre tem o que chorar...
Sempre tem um passado atrás de cada passo, sempre tem um bar com as amigas. Sempre tem um homem que chega com sorriso largo, todo perolado. E tudo vai clareando com aquele sorriso que doura a vida. Os diálogos, a companhia, a cama ardente, o cheiro da pele que sufoca e extasia.
E com a pele malva vem também os planos. Uma casa ampla, dois filhos - um para ser doutor e outro para ser bandido. Casa cheia no natal, receitas exclusivas da tv, gente deixando vestígios da ceia no tapete novo, gente deixando o cheiro pesado dos que muito comem e muito bebem na privada. E tem aquele cheiro de leitoa ressequida, aquele defunto tostado e crocante que engordura a alma, as artérias e a louça-boda, louça que veio embrulhada em papel de seda, comprada em muitas prestações e dada pela tia velha, lá das bandas de Minas.
Se reparasse bem nos planos dava para ver as noras - uma gorda, sorridente e simpática; outra magricela, mal humorada, ressentida; ou o contrário, tanto faz, nora a gente engole a seco, como quase todos aqueles que chamamos de família.
Seria uma vida sem sobressaltos, talvez só o sarampo do caçula pudesse fazer parte das grandes tragédias da família. Teria uma vida atarefada e um marido acomodado. O bonitão do bar agora fazia pose no sofá. Mas era ele ainda, o dono da bola, o cara da vez, com o sorriso perolado e braços que cercavam o Atlântico todo, de uma só vez.
-Pôs o lixo na rua?
-Lixo?
- É o lixo?
Silêncio.
Esquece o lixo. Ele não servia para muita coisa mais, mas ainda servia!
Que planos a caminho de casa naquela sexta fria. Não era ao certo uma sexta de maio ou agosto. Ela era apenas tão fria. E ele não veio, e nem atendeu ao telefone. Não disse adeus. Deixou apenas sífilis.
E nunca mais voltou. Namoro sempre termina. A vida murchou, os planos acabaram em ruína.
O rosto branco, a roupa alinhada, a moça de olhos enormes e sorriso escancarado diminuiu, desapareceu no final da tarde de sexta, virou mágoa, tristeza, doença, vergonha. Virou pedra, gelo, solidão e descontentamento.
Renasceu na segunda, nova, limpa, curada, com outros planos: viagem, casa pintada, amigos abraçados e horizontes revistos. Mudou a perspectiva.
Ela ainda anda pelas ruas toda bonita, perto dos quarenta com a cara fechada, cara de culta e mal humorada, afinal todo culto tem mal humor. Mas a cara fechada é para evitar um outro sorriso pérola, um outro sorriso semi-jóia perdido na esquina.
A vida mudou um pouco, já não se é mais tão menina um pouco depois dos trinta. Ainda tem um coração doce, um corpo de mulher desejável e um gosto amargo na boca, não de tristeza, mas de penicilina.
À Lygia Fagundes Telles, a mulher que me inspirou a escrever sobre aquilo que é tão óbvio é que é difícil de ver.
Levava as unhas pintadas, cabelo cuidado e roupa que vestia bem, enfeitava, ressaltava e a tornava ainda mais feminina.
Quem a via passar sentia um ar quase pedante, de quem não olha para os lados e pouca importância mostra para os olhos curiosos e lascivos.
Já no final da terceira década da vida era motivo de especulações dos vizinhos e da família. Ainda solteira, ainda sem filhos, sempre sozinha ou que pena era tão bonita.
- É a cara amarrada! dizia a velha da esquina.
- Marido só vem com sorriso.
Ela fingia não ouvir, parecia soberba, um tanto topetuda e de poucas explicações. Não é o tipo de moça que pede socorro e nem chora no colo das amigas. Ela só se escondeu de todos e da vida. E não é tão difícil se esconder da vida, basta apenas guardá-la dentro de si.
E quem a vê passar acha que sempre foi assim, que ela não tem motivos pra chorar ou que acontecera coisa ruim.
Mas nada é sempre assim, um dia as coisas mudam, um dia tudo acontece, uma dia a noite parece não ter fim. Noite insone, daquelas terríveis, em que todos dormem e o silêncio profundo da rua amedronta quem não dorme, quem não dorme sempre pensa, sempre lembra, sempre tem o que chorar...
Sempre tem um passado atrás de cada passo, sempre tem um bar com as amigas. Sempre tem um homem que chega com sorriso largo, todo perolado. E tudo vai clareando com aquele sorriso que doura a vida. Os diálogos, a companhia, a cama ardente, o cheiro da pele que sufoca e extasia.
E com a pele malva vem também os planos. Uma casa ampla, dois filhos - um para ser doutor e outro para ser bandido. Casa cheia no natal, receitas exclusivas da tv, gente deixando vestígios da ceia no tapete novo, gente deixando o cheiro pesado dos que muito comem e muito bebem na privada. E tem aquele cheiro de leitoa ressequida, aquele defunto tostado e crocante que engordura a alma, as artérias e a louça-boda, louça que veio embrulhada em papel de seda, comprada em muitas prestações e dada pela tia velha, lá das bandas de Minas.
Se reparasse bem nos planos dava para ver as noras - uma gorda, sorridente e simpática; outra magricela, mal humorada, ressentida; ou o contrário, tanto faz, nora a gente engole a seco, como quase todos aqueles que chamamos de família.
Seria uma vida sem sobressaltos, talvez só o sarampo do caçula pudesse fazer parte das grandes tragédias da família. Teria uma vida atarefada e um marido acomodado. O bonitão do bar agora fazia pose no sofá. Mas era ele ainda, o dono da bola, o cara da vez, com o sorriso perolado e braços que cercavam o Atlântico todo, de uma só vez.
-Pôs o lixo na rua?
-Lixo?
- É o lixo?
Silêncio.
Esquece o lixo. Ele não servia para muita coisa mais, mas ainda servia!
Que planos a caminho de casa naquela sexta fria. Não era ao certo uma sexta de maio ou agosto. Ela era apenas tão fria. E ele não veio, e nem atendeu ao telefone. Não disse adeus. Deixou apenas sífilis.
E nunca mais voltou. Namoro sempre termina. A vida murchou, os planos acabaram em ruína.
O rosto branco, a roupa alinhada, a moça de olhos enormes e sorriso escancarado diminuiu, desapareceu no final da tarde de sexta, virou mágoa, tristeza, doença, vergonha. Virou pedra, gelo, solidão e descontentamento.
Renasceu na segunda, nova, limpa, curada, com outros planos: viagem, casa pintada, amigos abraçados e horizontes revistos. Mudou a perspectiva.
Ela ainda anda pelas ruas toda bonita, perto dos quarenta com a cara fechada, cara de culta e mal humorada, afinal todo culto tem mal humor. Mas a cara fechada é para evitar um outro sorriso pérola, um outro sorriso semi-jóia perdido na esquina.
A vida mudou um pouco, já não se é mais tão menina um pouco depois dos trinta. Ainda tem um coração doce, um corpo de mulher desejável e um gosto amargo na boca, não de tristeza, mas de penicilina.
À Lygia Fagundes Telles, a mulher que me inspirou a escrever sobre aquilo que é tão óbvio é que é difícil de ver.
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