domingo, 9 de outubro de 2011

Chuva.

Ufa, não é que a bendita chuva chegou. Deu um alívio geral, todo mundo aquietou, o barulho na rua acalmou, eu até reencontrei forças para escrever. Ainda não sei bem sobre o que, e como toda pessoa sem assunto, falemos da chuva.

sábado, 16 de julho de 2011

Sem noção, Deolinda.

Quantas vezes julgas alguém
por julgar ter mais do que tem
e não ter a noção de si?
Tu não tens a noção de ti.

Quantas vezes queres e não tens?
Tantas vezes tens e detens
a noção do que tens aí.
Tu não tens a noção de ti
e perdeste a noção de mim.

Tu não tens a noção do que tens,
de quem és,
de quem sou para ti.
Tu perdeste a noção
de quem
gosta de ti,
gosta de ti,
sem a noção,
do que o amor tem.

Tantas vezes penso que tens
a noção de eu ser desses bens
que detens só porque enfim...
Tu não tens a noção de mim.

Tantas vezes quis ter também
e aprendi não tendo ninguém
só meu que eu devolvi?
Tu não tens a noção de mim
e perdeste a noção de ti.

Tu não tens noção do que tens,
de quem és,
e tu perdeste a noção
de quem
gosta de ti,
gosta de ti,
sem a noção
do que o amor tem...
gosta de ti
sem a noção
do que o amor tem fim.

Ausência.

Eu tenho quase tudo que necessito: roupa leve no verão e quentinha no inverno, são tantas roupas que um armário não basta. Tenho também comida, carro, casa e um cachorro. Tenho amigos de infância e alguns novos. Não tantos que posso, mas o suficiente para rir e chorar.

Tenho família, trabalho, rotina, quilos para perder, exercício para fazer, viagens para descobrir o mundo. Eu tenho quase tudo que necessito: paz de espírito, alegrias e conquistas, tenho sonhos e almejo algum futuro. Tenho boa saúde e nenhuma dívida. Tenho alguma fé, ainda não a perdi. Eu só não tenho o seu amor. E sinceramente, apesar de quase tudo o que tenho bastar ainda falta seu amor. E eu não compreendo porque faz tanta falta e me entristece a sua ausência.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Uau.

Há tanto tempo que não escrevo que meu blog não me reconhece mais.
Acho que fiquei fora do ar por meses e, sinceramente, foi bom. Desisti da vida virtual de vez. Um saco ler emails, mensagens e postagens. Quero paz! E ela chegou no formato "desconectada." Fui, talvez de vez.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

John & Yoko.


" Não tenho medo de mostrar a minha vulnerabilidade". John Lennon, in foto Annie Leibovitz, 4 horas antes de ser assassinado.

domingo, 16 de janeiro de 2011

A geografia e a vida.

Chega o verão e a chuva vem, o morro cai, a vida se vai, a promessa vem, o rio desbarrancai, o discurso no outono esvai, a televisão não reprisa mais, no inverno o urbanista se contrai, a população se refaz, o barraco elevai, a primavera chegai, as flores de plásticos não murchai e o verão dá sinal que vem a mais. E recomeça o ciclo, e a geografia explicai, outrora envergonhai.

Poética.

"... das esquinas que passei restaram apenas avenidas..."

Penicilina.

Ela vivia sozinha. Perto dos quarenta, ainda bem bonita. Dessas moças de escritório, de pele branca, olhos castanhos imensos, corpo bem feito, sorriso bem cuidado, e seios que tentavam sair pela blusa , embora já mostrassem que conheciam nessa altura da vida uma certa lei de Newton.
Levava as unhas pintadas, cabelo cuidado e roupa que vestia bem, enfeitava, ressaltava e a tornava ainda mais feminina.
Quem a via passar sentia um ar quase pedante, de quem não olha para os lados e pouca importância mostra para os olhos curiosos e lascivos.
Já no final da terceira década da vida era motivo de especulações dos vizinhos e da família. Ainda solteira, ainda sem filhos, sempre sozinha ou que pena era tão bonita.
- É a cara amarrada! dizia a velha da esquina.
- Marido só vem com sorriso.
Ela fingia não ouvir, parecia soberba, um tanto topetuda e de poucas explicações. Não é o tipo de moça que pede socorro e nem chora no colo das amigas. Ela só se escondeu de todos e da vida. E não é tão difícil se esconder da vida, basta apenas guardá-la dentro de si.
E quem a vê passar acha que sempre foi assim, que ela não tem motivos pra chorar ou que acontecera coisa ruim.
Mas nada é sempre assim, um dia as coisas mudam, um dia tudo acontece, uma dia a noite parece não ter fim. Noite insone, daquelas terríveis, em que todos dormem e o silêncio profundo da rua amedronta quem não dorme, quem não dorme sempre pensa, sempre lembra, sempre tem o que chorar...
Sempre tem um passado atrás de cada passo, sempre tem um bar com as amigas. Sempre tem um homem que chega com sorriso largo, todo perolado. E tudo vai clareando com aquele sorriso que doura a vida. Os diálogos, a companhia, a cama ardente, o cheiro da pele que sufoca e extasia.
E com a pele malva vem também os planos. Uma casa ampla, dois filhos - um para ser doutor e outro para ser bandido. Casa cheia no natal, receitas exclusivas da tv, gente deixando vestígios da ceia no tapete novo, gente deixando o cheiro pesado dos que muito comem e muito bebem na privada. E tem aquele cheiro de leitoa ressequida, aquele defunto tostado e crocante que engordura a alma, as artérias e a louça-boda, louça que veio embrulhada em papel de seda, comprada em muitas prestações e dada pela tia velha, lá das bandas de Minas.
Se reparasse bem nos planos dava para ver as noras - uma gorda, sorridente e simpática; outra magricela, mal humorada, ressentida; ou o contrário, tanto faz, nora a gente engole a seco, como quase todos aqueles que chamamos de família.
Seria uma vida sem sobressaltos, talvez só o sarampo do caçula pudesse fazer parte das grandes tragédias da família. Teria uma vida atarefada e um marido acomodado. O bonitão do bar agora fazia pose no sofá. Mas era ele ainda, o dono da bola, o cara da vez, com o sorriso perolado e braços que cercavam o Atlântico todo, de uma só vez.
-Pôs o lixo na rua?
-Lixo?
- É o lixo?
Silêncio.
Esquece o lixo. Ele não servia para muita coisa mais, mas ainda servia!
Que planos a caminho de casa naquela sexta fria. Não era ao certo uma sexta de maio ou agosto. Ela era apenas tão fria. E ele não veio, e nem atendeu ao telefone. Não disse adeus. Deixou apenas sífilis.
E nunca mais voltou. Namoro sempre termina. A vida murchou, os planos acabaram em ruína.
O rosto branco, a roupa alinhada, a moça de olhos enormes e sorriso escancarado diminuiu, desapareceu no final da tarde de sexta, virou mágoa, tristeza, doença, vergonha. Virou pedra, gelo, solidão e descontentamento.
Renasceu na segunda, nova, limpa, curada, com outros planos: viagem, casa pintada, amigos abraçados e horizontes revistos. Mudou a perspectiva.
Ela ainda anda pelas ruas toda bonita, perto dos quarenta com a cara fechada, cara de culta e mal humorada, afinal todo culto tem mal humor. Mas a cara fechada é para evitar um outro sorriso pérola, um outro sorriso semi-jóia perdido na esquina.
A vida mudou um pouco, já não se é mais tão menina um pouco depois dos trinta. Ainda tem um coração doce, um corpo de mulher desejável e um gosto amargo na boca, não de tristeza, mas de penicilina.

À Lygia Fagundes Telles, a mulher que me inspirou a escrever sobre aquilo que é tão óbvio é que é difícil de ver.