Mais um janeirão e mais uma viagem. Dessa vez fui para Alagoas. No meio daquela profusão de turistas e praias tive tempo para refletir sobre coisas profundas e existenciais. Mas meu olhar sobre o Nordeste está um pouco mais apurado também. Além de toda a beleza da caatinga, do litoral e do maravilhoso e degradado rio São Francisco, vi um povo pobre demais que ainda vive sem saneamento básico, que corta cana-de-açúcar no braço, que se acha rico por ganhar R$600,00 reais por mês, que ainda faz em média cinco filhos por família, que tem crenças infinitas, sabores maravilhosos e sotaque que pega na gente e, em poucas horas passa a fazer parte do nosso vocabulário. Vi homens e mulheres fortes. Vi latifundiários milionários que jogam seu esgoto na praia dos pobres, vi mulheres gastando em lojas o que uma família nunca terá para viver e alimentar seus descendentes. Vi um país pulsando, sangrando, pedindo socorro, desde as águas verdes e assoreados do Velho Chico, ora pela irrigação ilegal ora pela transposição do mesmo, até as caatingas com gado magro, vida rala e gente queimada pelo sol e marcada pela pobreza. Vi meninos atolados no esgoto e entrando na puberdade sem ter saído do ensino fundamental. Vi aquilo que os turistas e veranistas não veem porque estão ocupados devastando as areias, comprando bugigangas ou enchendo a cara de cerveja barata. Meu olhar não se cansa de ver o que dói...e sinceramente, quando deixar de ter este olhar aguçado quero estar morta.
PS: as imagens eu não tenho, a moderna camera digital pifou... fia da gota de camera.
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